O manifesto fotográfico de André Mantelli

Fascinado pelos fotógrafos Lambe-lambes, André Mantelli é definitivamente um fotógrafo de rua.

Começou a clicar durante a sua militância estudantil na universidade, onde driblou a falta de grana para comprar sua primeira câmera. A vida o levou para a Publicidade e depois de alguns anos de experiência como diretor de arte em diversas grandes agências paulistanas, finalmente foi cumprir seu destino.

“E foi justamente um fotógrafo do mercado publicitário (bom pra caralho, diga-se) que botou a pilha, um grande amigo, o Allard. Era o cara que insistia em dizer ‘vai, compra equipamento e sai por aí.’ Um dia cheguei na casa dele e ele tinha comprado uma Canon 20D, ‘toma, agora vai.’ Daí fui”, conta.

Foi dada a largada para o então fotógrafo freelancer, que hoje já coleciona diversas séries fotográficas dos mais variados temas, como: Guri Santa Marcelina (um programa de educação musical nas escolas públicas da periferia paulistana, os CEUs), três livros de escola de samba de São Paulo, fotos para o livro institucional de Inhotim, um projeto no Vale do Jequitinhonha (uma travessia da Cordilheira do Espinhaço guiada por entrevistas na região), o projeto CLAUN (ao lado de Felipe Bragança, que acompanha a cultura bate bola do subúrbio carioca), e uma ampla documentação do carnaval de rua carioca. Além de seus projetos pessoais : a série Amigas, A República das Mulheres e a A Vida na Guanabara.

Série "Amigas"
Série “Amigas”
Uma das fotos para o livro instirucional de Inhotim
Uma das fotos para o livro institucional de Inhotim
Travessia Cordilheira do Espinhaço
Travessia Cordilheira do Espinhaço
Projeto CLAUN - a cultura bate bola do subúrbio carioca
Projeto CLAUN – a cultura bate bola do subúrbio carioca

O currículo não para por aí. Desde 2012 o fotógrafo e publicitário com formação de “esquerda”, como costuma dizer, começou a fazer imagens dos atos por direitos nas ruas – como colaborador do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio – e que culminaram nas manifestações do ano seguinte.

"O curso do Rio" - Mais de um milhão de pessoas na Avenida Presidente Vargas, 20 de junho de 2013
“O curso do Rio” – Mais de um milhão de pessoas na Avenida Presidente Vargas, 20 de junho de 2013
"Dona Baratinha é do povo" - Manifestação no casamento da filha de Jacob Barata no Copacabana Palace em Julho de 2013
“Dona Baratinha é do povo” – Manifestação no casamento da filha de Jacob Barata no Copacabana Palace em Julho de 2013
"A Rocinha atravessa o túnel. "Cadê os Amarildos?"
“A Rocinha atravessa o túnel. “Cadê os Amarildos?” – 1 de Agosto de 2013

Com câmera em punho, a intenção de André nas ruas nunca foi farejar conflitos, o que o distancia de uma certa forma da prática fotojornalística . A grande busca do artista midiativista é não se deixar enganar pela imagem. “Ela não diz tudo”, esclarece.

A palavra é algo muito presente em suas fotos. Ele costuma dar um status especial a todos os registros , fazendo nascer assim outras imagens nas palavras.

“Ressignificar a palavra ou a imagem através dela, brincar com ela fora da imagem ou deixá-la independente da idéia de legenda ou de título. As legendas são outras referências, índices de outras imagens correlacionadas às vezes na mesma história, mas em outro tempo, um tempo próprio. E se nada disso funciona, daí fico sem uma coisa e outra”, brinca.

"Entre os dentes segura a primavera" - BOTA NA RODA#10
“Entre os dentes segura a primavera” – BOTA NA RODA#10
"Fluxo luminoso com viés mágico" - BOTA NA RODA#7
“Fluxo luminoso com viés mágico” – BOTA NA RODA#7

O tom poético em seu trabalho é visível a todo o momento. Seja registrando confetes ou bombas, o fotógrafo deixa estampado a sua militância nas imagens.

"Habemus papam" - Marcha das Vadias, 27 de Julho de 2013, Copacabana, RJ.
“Habemus papam” – Marcha das Vadias, 27 de Julho de 2013, Copacabana, RJ.

“A resposta à grande mídia tradicional é urgente e inadiável, é extremamente importante contar a história além do que é replicado por ela, que omite e manipula a compreensão dos fatos de maneira vergonhosa, criminosa até. Vivemos a era do vandalismo da grande imprensa. É a época da ditadura da mídia. Não vou pras ruas afim de caçar alguma denúncia, tenho a prática menos de cão farejador e mais flaneur, mais ‘João do Rio.’ Estar no meio dos fatos já é o suficiente para revelar o espírito das ruas, é viver a história e tentar contá-la com o menor ruído possível”, define.

06.02.2014_ Ato do MPL/RJ é reprimido na Central do Brasil. Trabalhadores protestaram junto aos manifestantes, que também liberaram as catracas.
06.02.2014_ Ato do MPL/RJ é reprimido na Central do Brasil. Trabalhadores protestaram junto aos manifestantes, que também liberaram as catracas.

André é o autor da foto que se tornou uma espécie de ícone do boom das manifestações de 2013, registrada na Alerj, mais especificamente no dia 13 de Junho.

"O Rio de Janeiro também foi às ruas. Concentração em frente à Alerj depois da caminhada que partiu da Candelária. Tudo indica que este é só o começo"
“O Rio de Janeiro também foi às ruas. Concentração em frente à Alerj depois da caminhada que partiu da Candelária. Tudo indica que este é só o começo”

“Era a primeira vez que tínhamos ali um ato com mais de 10 mil pessoas, a energia tava diferente, forte, se notava que a coisa enfim tinha pegado. Alternava de posição, ou ficava no meio energizando com a galera ou ladeava pra contemplar a massa. Até que na Cinelândia teve uma rápida consulta popular que decidiu que o cortejo seguisse até a Alerj. Pensei, que bonito vai ser esse povo todo, essa alegria toda com faixas e bandeiras chegando lá aquele pequeno largo. Daí não pensei mais nada, só corri até as escadarias da Assembléia e ainda tive tempo de escolher um lugar, bem atrás das estátuas. Depois, esperei. Esperei com a expectativa dos grandes acontecimentos, deliberadamente estava ali vestido de gárgula pra fazer uma foto histórica, um desenho, um quadro. Na verdade, gravei a chegada dos manifestantes e só depois de um tempo, quando a massa tava frenética, é que comecei a clicar, não mais que duas ou três imagens da mesma cena. E bastava, afinal. Pouco depois saí correndo pra casa pra subir a foto na rede, o mundo precisava ver o que estava acontecendo finalmente. O Rio estava na rua e não era carnaval “, relembra.

E foi juntando serpentinas a gás lacrimogêneo, índios da Aldeia Maracanã e dos blocos da cidade que nasceu o ensaio O Rio♥Rua que é uma combinação do seu trabalho Rio das Manifestações com o Carnaval, deixando bem explícito o desejo do fotógrafo que ninguém saia mais das ruas.

O fotógrafo deixa claro que também fotografa casamento, festas, travessias, bicho de estimação, churrasco com os amigos, café da manhã, desfile na laje, nuvens, porque pra ele tá tudo no mesmo bojo. 😉

André Mantelli é fotógrafo, quase- nômade, midiativista, apaixonado por HQs, pelo cinema italiano de Fellini, a grandiosidade do cinema em 70mm com suas angulares maravilhosas, o Carnaval e a militância. Tem como referências Cartier-Bresson, Diane Arbus, Sebastião Salgado, J.R. Ripper, Farkas, Vivian Maier, DiCorcia, Pierre Verger e seu avô Giuseppe. Lista pra gente os trabalhos do irônico Cartiê Bressão; Lúmens, do iluminado João Penoni, os retratos e as histórias da Julia Rodrigues; as fotos do cabra vermelho Gilvan Barreto e a natureza cheia de Alvaro Vilela.

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Bruna Messina

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Não curte futebol, mas joga nas 11. Redatora, Roteirista, Analista de Mídias Sociais, Produtora e Phd em deboche e ironia.
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