Foto: Bel Acosta

Em busca de alternativas ao óbvio

Há seis meses não tenho casa, mas continuo na minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Incomodada com as formas estabelecidas por um sistema que engole e quase nos obriga a ter vidas que não eram exatamente a que gostaríamos, perto dos 21 anos comecei a buscar alternativas ao óbvio. Em meio a cursos incríveis e revolucionários, pessoas inspiradoras e, também, tentativas de trabalhos dentro do “sistemão” (provando da fruta para poder falar que não gosta dela), muita água rolou até eu decidir me experimentar nômade. Nômade na minha própria cidade.

Não foi fácil tomar a decisão. Eu amava a casa em que eu morava, as pessoas. Mas eu já estava sem dinheiro para o aluguel e também comecei a achar interessante tentar driblar o sistema, ou pelo menos fazer dessa passagem por ele algo mais divertido e desafiador. E, então, precisava escolher: ou arrumava com urgência um emprego para conseguir pagar as minhas contas ou teria que sair de casa. Não queria topar qualquer emprego para pagar contas no fim do mês. E também não tinha em vista nenhuma outra possibilidade menos tenebrosa que essa. Sem dinheiro, sem alguma perspectiva e ligeiramente ansiosa por essa experiência, escolhi sair e minimizar ao máximo os gastos. Fiz uma lista dos possíveis amigos que me abrigariam e não sabia como seria tudo isso.

Logo no início da nova jornada percebi que não me era confortável, e nem sentia justo, eu receber sem dar nada em troca. Eu estava prestes a começar a ter abrigo nessa cidade cara, onde todo mundo se vira nos 30 para pagar seus aluguéis e demais contas, e eu, que optei por não ter mais esse custo, ia viver às custas dos outros? Não, sem sentido. Então pensei nas trocas. Com sensibilidade aguçada, observação constante e conversas profundas e longas com meus anfitriões, foi ficando mais simples entender quais as demandas do lado deles que eu, com minha humilde presença, poderia suprir. Aí, sim, alguma troca (e para além do dinheiro!) aconteceria. A partir daí as relações e as trocas começaram a ser de ganha-ganha e eu passei a me deliciar nesse fluxo de moradias temporárias, vivendo a cada cinco, sete, quinze dias (isso varia muito) rotinas diferentes, experimentando a diversidade humana no cotidiano.

A contribuição com comida e insumos de limpeza da casa começa dentro do pacote. Limpar uma geladeira inteira de surpresa, em outra casa o fogão, virar lavadeira de louça oficial, fazer comida, suco verde, são tarefas que partem da sensibilidade e da observação que citei antes. Agora, o mais curioso, lindo e verdadeiro que tenho vivido é que a maior demanda é de presença física, de companhia do outro. Seja em trocas de conversa, em silêncio compartilhado, ou apenas com ouvidos interessados e atentos. A cidade pulsa, a vida social no Rio de Janeiro grita, as redes sociais não param. Mas os encontros, aqueles mais sutis, os de presença verdadeira, de estar, somente estar, e ser, esses estão raros.

Não sei por quanto tempo mais fico nômade, a vida tem sido um fluir de experiências. Mas sou muito grata a cada amigo que, até agora, abriu a sua vida para eu passar mais profundamente por ela. E me deu o que eu mais precisava, no plano físico, na hora: abrigo. Mas ele é sempre só o início de tudo, na verdade recebo muito mais também.

E em meio às experiências, tentativas, aos erros e acertos em busca de uma vida mais saudável, coerente, conectada com as pessoas – e tudo isso no meio de um grande centro urbano – que a SerHurbano e eu, também um ser urbano e humano, lançamos hoje essa coluna. Junto da arte que sai de todos os poros desse site e dos sereshurbanos e da determinação de transformar a cidade, vamos trazer pautas em diversos outros temas com iniciativas, projetos, curiosidades, pessoas inspiradoras e possibilidades que existem e acontecem nos centros urbanos. Porque a cidade não para, as urbanidades não param, nem a SerHurbano, nem eu, imagino que vocês também não, e está na nossas mãos transformar o que não faz sentido, o que é incoerente, burro, criando a vida, as relações, os trabalhos e os sistemas que queremos viver aqui.

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Patrícia Olivieri

Patrícia Olivieri

Escreve, dança, tem vida social ativa e também adora um recolhimento. Se joga como cobaia no que gera curiosidade a ela. Também é Comunicadora Social, Designer para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Produtora Cultural.
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