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8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe

“O audiovisual é o que se tem de mais avançado como meio de comunicação entre os povos da terra. O cinema é uma arma, nós negros temos uma AR15 e com certeza sabemos atirar”.

As palavras são de Zózimo Bulbul, ator e cineasta brasileiro que sempre lutou pelos direitos dos negros. Quem já assistiu “Compasso de Espera”, de Antunes Filho, e “Alma no Olho”, do próprio Zózimo, consegue entender de cara a mensagem do artista e disseminador da cultura africana. Infelizmente, o perdermos em 2013, mas sua história permanece. Até o dia 3 de junho, por exemplo, um de seus principais legados acontece no Rio de Janeiro: o 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe.

O evento, que este ano marca a reinauguração do Cine Odeon, faz parte do Centro Afro Carioca de Cinema, desenvolvido por Zózimo em 2007 com o objetivo de discutir a importância do negro no cinema. Com passos curtos, porém precisos, o projeto ganhou força e chega com muito mais fôlego em seu oitavo ano. Em 2015, a mostra – que conta com a curadoria do cineasta Joel Zito Araújo – traz uma seleção de 33 filmes brasileiros e outros 30 africanos e de sua diáspora. É pra chorar de alegria, né? Segundo Joel,“o crescimento de inscrições este ano foi três vezes maior do que no ano passado, resultando em uma seleção que demonstra o crescimento de núcleos fortes de cinema negro na Bahia, em São Paulo e no Rio, além de uma produção que também acontece em quase todas regiões brasileiras.”

Além do Cine Odeon, o Museu de Arte do Rio (MAR) e a Biblioteca Parque Estadual, localizada na Presidente Vargas, são mais dois importantes espaços que abrigarão os filmes e as demais atrações do Encontro, como o lançamento do Ciclo de Debates de Cinema e Literatura.

Cinema negro brasileiro

As produções brasileiras que marcam presença no 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe prometem surpreender. Agora, vou falar um pouquinho sobre os filmes nos quais tive a oportunidade de conhecer mais de perto, como é o caso dos filmes de Clementino Jr., do Cineclube Atlântico Negro, e do documentário “Vovó Leontina”, de Paulo Rosa.

No dia 23 de maio, conheci pessoalmente Clementino Jr., cineasta, professor e responsável pelo Cineclube Atlântico Negro , cineclube mensal com programação de filmes da diáspora africana. Foi durante o evento Afrontamento – Mostra Independente de Arte Negra, no Hotel da Loucura, que tive a chance de assistir a dois filmes que estão na programação do Encontro de Cinema Negro Brasil: “(in)cômodos” e “Jurema”. Ambos me impactaram profundamente. O SerHurbano conseguiu bater um papo com Clementino sobre estas produções.

(in)cômodos de Clementino Jr.
(in)cômodos de Clementino Jr.

SerHurbano: Esta é a primeira vez que o Cineclube Atlântico Negro (CAN) participa do Encontro de Cinema Zózimo Bulbul?

Clementino Jr.: Como Cineclube Atlântico Negro, sim. Esta é a primeira vez, com dois curtas-metragens: (in)cômodos e Jurema. Já tinha participado da primeira edição com o meu documentário “Sua Majestade, O Delegado!”, de 2007, pela Crème De La Clems Produções, que assina meus trabalhos desde 2000 (como o meu primeiro curta em animação chamado Sillis). A outra produção do CAN foi o longa-documentário “Anjo de Chocolate”, de 2003.

Imagem do filme "Jurema"
Imagem do filme “Jurema”

SH: Poderia falar um pouco mais sobre os filmes que serão exibidos durante o evento? Por exemplo, sobre o filme (in)cômodos, o que levou tirar essa ideia do papel e transformá-la nesse filme tão impactante? Experiências pessoais? O que hoje te incomoda? 

CJ: Me incomoda que falar de preconceito continue sendo um tabu, e onde há um grupo soberano, há um silêncio consentido, um padrão estabelecido e todos se adaptam a este. E como realizei (in)cômodos em uma oficina durante um evento da UERJ chamado “Seminário Fela Kuti da UERJ – A África Que Incomoda”, resolvi tencionar com o público da oficina seus incômodos pessoais. Rolou muita emoção durante a gravação, e o resultado saiu algo além do planejado, e é uma experiência que tenho repetido tanto na minha pesquisa de Mestrado, como para dinamizar grupos em busca de conciliação. E se render outro filme, será bem-vindo.

Clementino, deixo aqui o meu muito obrigada pela conversa. E atenção para as novidades do Cineclube: agora, o CAN fará uma experiência com curadorias distintas em dois espaços: no Terreiro Contemporâneo e no Cinema Nosso, ambos na Lapa. Mais informações pela página do CAN no Facebook. Os filmes (in)cômodos e Jurema serão exibidos, respectivamente, nos dias 30, às 14h30, e 31, também às 14h. Ambos no Cine Odeon.

Também tive a chance de conversar com a produtora Luana Dias sobre o documentário “Vovó Leontina“. O filme, produzido por ela e dirigido por Paulo Rosa, narra a história da matriarca Leontina e sua família, que resiste através do Grucon – Grupo de União e Consciência Negra, em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro. “O documentário, sobretudo, é um relato de atravessamento entre gênero e etnia. Um fragmento de uma história familiar particular e universal. Um pedaço de memória da realidade das famílias negras nas primeiras décadas pós-abolição”, explica Luana. “Vovó Leontina” será exibido no Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe no dia 31 de maio, às 14h30, no Cine Odeon; e no dia 3 de junho, às 15, no Museu de Arte do Rio (MAR).

"Vovó Leontina" de Paulo Rocha
“Vovó Leontina” de Paulo Rocha

O 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe é um importante evento não apenas para se divertir, mas também para trocar ideias e conhecer de perto excelentes profissionais. Mais informações pelo site: afrocariocadecinema.org.br  

Nota da repórter: A minha vontade era escrever mais e mais sobre esse encontro e, claro, sobre quem foi Zózimo Bulbul, mas encerro aqui com a esperança de ver o cinema negro sendo valorizado como ele realmente merece. Que a imprensa possa destacar seus artistas e promover debates sérios, pois está na hora do Brasil acordar. Viva Zózimo!

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Cinthia Karina Fonseca

Cinthia Karina Fonseca

Fluminense, jornalista, assessora de imprensa, analista de redes sociais, redatora, poetisa e cinéfila. Escreve. Ponto. A Baixada está no coração e o Rio pelos pés.