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CIDADÃO 10

A fama da receptividade do povo brasileiro ganhou o mundo, principalmente após os eventos globais que rolaram por aqui, mas quando falamos de cultura de cidadania parece que somos cínicos e esquecemos que vivemos em sociedade, num Estado democrático de direito no qual deveria se garantir o respeito das liberdades civis. Estamos acostumados a ver exemplos de discriminação racial, sonegação de impostos, corrupção, impunidade, violência de diversas formas, externalidades negativas de empreendimentos grandes e pequenos, bláblábláblá. Então aos olhos dos gringos nós somos bons anfitriões, mas para brasileiros de outras etnias, níveis sociais, culturas, setores de atuação, etc, somos apáticos? Faz sentidis?

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Se o assunto da vez são as “Smart Cities” (cidades inteligentes), devemos entender que o que compõe e transforma qualquer cidade pra melhor são seus habitantes, logo cidades inteligentes, antes de mais nada, começam com cidadãos inteligentes e conscientes, certo? Mas como um mero cidadão carioca como eu poderia contribuir para nos aproximarmos desse objetivo? Certamente muitos responderiam: “é preciso investir mais em educação!”, concordo, mas a real questão é: “COMO?”

Educação é algo tão amplo que acho que o melhor meio de racionalizar sobre o tema é esclarecer primeiro que aprendizagem e ensino são coisas totalmente diferentes. Vejo o ensino como uma intenção com potencial (ou não) de culminar em uma aprendizagem, enquanto que o aprendizado pode vir de um ensino ou, naturalmente, de um conjunto de experiências próprias – pois geralmente aprendemos mais sobre aquilo que nos interessamos e com isso buscamos obter experiências em certos assuntos. Falo isso pois esse é o cerne do meu trabalho hoje.

Acredito que uma das melhores formas de despertar o interesse humano, consequentemente uma das melhores formas de ensinar algo, se dá pela divulgação de bons exemplos práticos. Com isso, também acredito que dar oportunidades para as pessoas aprenderem praticando é um bom mecanismo de se “investir em educação”. O embrião desse raciocínio é a plataforma social de ações de cidadania: Cidadão10, da qual sou sócio e cujo objetivo é construir uma comunidade de cidadãos nota dez, para que os mesmos possam conhecer  outros que compartilham dos seus valores e talentos. A proposta é que essas pessoas tenham um ambiente legítimo de divulgação para seus eventos e ações que visam a melhora de suas cidades. Um lugar onde grupos e fóruns de debate surjam a partir das questões que gente do bem se importa, sem chance para quem quer apenas reclamar ou apontar problemas sem propor soluções, logo, é vital que entendamos não apenas nossos direitos como cidadãos, mas também nossos deveres.

A missão do Cidadão10 é democratizar o acesso às boas iniciativas, ensinar/liderar pelos bons exemplos e aprender praticando-os. Buscamos compreender as principais motivações e dificuldades dos grupos e indivíduos que fazem o bem para a sociedade afim de poder investir nos mesmos  não apenas com dinheiro, mas também com técnicas que unem o entretenimento e o marketing com o serviço social ou ambiental. Você já ouviu falar de “fun theory”? “edutainement”? “gamification”? Se sim, então você deve estar entendendo a nossa pegada, se não, sugiro que clique nas palavras acima, o link vai te levar a uma página que explica um pouco estes conceitos. Eu sou otimista e acho que se as pessoas, além de tomarem consciência sobre os problemas de suas cidades, tiverem confiança e criatividade, agindo coletivamente e de forma organizada temos chance de “faxinar a casa”. Transferir recurso do setor privado para a sociedade civil investindo em ações sociais e ambientais, que mobilizam enorme quantidade de pessoas e cujos benefícios, ao final, se revertem para todos os participantes e também à região, além de uma baita divulgação boca à boca que pode acelerar esse processo.

Como exemplo, unimos a Sirius Imagens e o artista de rua Leo Venom para registrar uma obra simbólica sobre a mobilidade no Rio. Outro foi na véspera do carnaval desse ano; investimos em divulgação e apoiamos um mutirão para doar sangue como uma forma de relembrar a sociedade sobre a causa e uma forcinha para o banco de sangue – além de apoiar o cidadão que criou o “Rolezinho no Hemorio” em 2014, Marcelo Arthur.

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A ideia do Cidadão10 nasceu em 2013 quando meu amigo designer e empreendedor Fred Tannenbaum, em meio às manifestações populares, se deparou com o RioIdeias, um concurso da Prefeitura do Rio de Janeiro desafiando os cidadãos a sugerirem ideias de aplicativos que transformem o Rio em uma Cidade Inteligente. Seu pensamento foi: se os manifestantes estão se juntando através das redes sociais para ir à rua protestar, por que não aproveitar essa energia dos jovens que exigem mudanças, para que nós próprios façamos a mudança!? Ao invés de nos juntar para reclamar, vamos nos juntar para identificar os problemas e agir para solucioná-los! Assim, o Fred venceu esse prêmio na categoria de Ordem Pública com a ideia: “gerar um ranking cidadão nota 10 através de boas ações na cidade compartilhadas através de fotos. O cidadão nota 10 do mês recebe um prêmio.” Daí pra frente, com essa ideia, o Fred aplicou no RioAPPs e no StartupRio, obtendo sucesso em ambos.

Nessa etapa, enquanto eu era assistente de pesquisa no IETS, estava no final da faculdade de ciências econômicas na UFF e também prestava consultoria em gestão para startups, o Fred me convidou para embarcar na missão de transformar sua ideia premiada em um empreendimento social e eu topei! Talvez por ser apaixonado por educação e estratégia, talvez porque tinha medo de acabar preso num emprego que não fizesse sentido pra mim, sei lá.

Tornar-se empreendedor não é uma decisão muito consciente, vem de uma profunda paixão. No caso de empreendedorismo social, essa paixão está ligada a uma enorme vontade de transformar realidades e, no meu caso, o desejo de propagar melhorias para as gerações futuras – pois apesar de discursar muito sobre direitos e deveres civis, viver em sociedade pacificamente etc, penso mais do ponto de vista de uma espécie planetária que precisa respeitar as demais formas de vida que aqui residem conosco. E por que não começar por tentar inspirar os humanos a melhor se auto organizarem? Afinal, façamos o bem sem olhar a quem, pois violência gera violência e gentileza gera gentileza!

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*Texto originalmente escrito por e publicado na NOO.

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