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D de Doutrinador

Nesse momento, após mais de 40 mil curtidas desde sua primeira aventura nas redes sociais e várias aparições em páginas sobre Histórias em Quadrinhos (HQs) tanto daqui como na gringa, você já deve ter visto por aí uma figura de preto chamada Doutrinador.

Ao contrário do que muita gente pensa, o “herói” da máscara de gás que anda causando na web surgiu bem antes das passeatas e dos black blocs que tomaram as ruas do Brasil a partir de junho de 2013.

Batizado no início como “Vigilante” (em 2008) e engavetado durante algum tempo, o personagem finalmente marcou presença na internet no mês de Abril de 2013, já utilizando o nome DOUTRINADOR.

O resto é história. Em quadrinhos.

Em plena Cinelândia, palco de protestos e passeatas no Rio de Janeiro, bati um papo com Luciano Cunha (designer gráfico e ilustrador por trás da máscara do Doutrinador), para tentar entender por quê o seu quadrinho desperta tanta empatia e polêmica ao mesmo tempo.

Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima
Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima

“Revolta, indignação, asco de nossa classe política” – Foi a frase inicial de nossa conversa e o sentimento que moveu (e ainda move) o Luciano na criação das suas histórias, desde 2008.

Por conta disso, muita gente acaba confundindo a posição pessoal do autor com a atitude do seu personagem nas HQs. Mas ele não é o seu alter ego, nem uma identidade secreta. É a ficção com a dose que os quadrinhos permitem. Pessoalmente, o designer não acha que a situação tenha que ser resolvida por meios violentos. “Essa solução radical e idealizada só funcionaria nos gibis”, diz o desenhista que simpatiza com políticos como Chico Alencar e Marcelo Freixo.

Definir o Doutrinador é outra dor de cabeça para o quadrinista: Fascista, Anarquista, Coxinha… Já chamaram o personagem de tudo. Para se ter uma ideia: uma revista moderninha chamou o personagem de “Tucano demais” enquanto um jornal conceituado o tachou de “muito Che Guevara”!

Essa polarização aliada à necessidade de rótulos para tudo chateia o ilustrador mas, se ele fosse classificar o Doutrinador como algo, seria de “libertário radical”. Frisando que o personagem não tem bandeira.

Por atacar figuras um tanto semelhantes aos nossos governantes, Luciano acabou processado por um político famoso. Mas, apesar de alguns pensarem que isso poderia trazer mais publicidade para o Doutrinador, ele preferiu deixar quieto e assim evitar mais enxaquecas.

Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima
Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima

Para preservar a sua sanidade, o autor também já deixou de responder aos comentários nas redes sociais faz algum tempo. Mas lê todas as mensagens inbox e responde a todos educadamente. Considerando como o mínimo que pode fazer para o público do seu trabalho.

Público cuja maioria esmagadora é de homens, bem jovens, entre 16 e 24 anos. “Com uma boa parcela de trintões também” segundo Luciano.

Leitores que se identificam com a figura do Anti-Herói: Um personagem humano, cheio de defeitos, falhas, fraquezas, incertezas. Já que “Herói não está com nada!” para o desenhista.

Claro que, ao pensarmos em anti-heróis, figuras como Wolverine, Justiceiro, Juiz Dredd, Batman e até o Capitão Nascimento passam pelas nossas cabeças. Mas nenhum deles serviu de inspiração para o designer, que não acompanha esses personagens faz algum tempo. Nem mesmo o aclamado V de Vingança, que o cartunista só foi ler de verdade após os comentários na sua fanpage.

“A última HQ do Batman que li foi o Cavaleiro das Trevas do Frank Miller (que, na minha opinião, é a melhor HQ de todos os tempos). A inspiração básica foi essa e a minha revolta mesmo” diz.

Guitarrista nas horas vagas, parte da inspiração para o Doutrinador também veio do universo da Música, do Rock. Na primeira edição impressa, publicada de forma independente, há uma página em que ele faz questão de revelar quantas bandas e canções o inspiraram ao longo do processo de criação. Algumas sequências da história são músicas quase inteiras. Essa associação não passou batida pela Revista Rolling Stone da Argentina, que chamou o personagem de Anti-Herói Roqueiro! “Foi quase um orgasmo pra mim!” ri Luciano. Obs: A Rolling Stone nacional nunca deu uma nota sequer para o anti-herói.

Em um momento marcante da HQ, o Doutrinador questiona o atual cenário da cultura brasileira. Para o quadrinista, uma cena cultural espelha o seu momento histórico. Aproveitando para citar, como exemplo, a herança da MPB produzida durante a ditadura e hoje reconhecida internacionalmente por sua resistência e pluralidade. A mesma MPB que, atualmente, passa por um momento um tanto empobrecido. “Tem tanta gente nova e boa por aí… É uma pena que o cenário imposto pela mídia esteja tão acéfalo como agora. E é mais tenebroso ainda ver que aqueles que poderiam formar opiniões estão escondidos covardemente atrás de editais do Governo” lamenta o autor.

Para depois concluir que uma música, um filme, um quadrinho refletem, sem dúvida alguma, a nossa sociedade. E podem trazer a sua contribuição num processo de mudança.

Na virada de 2014 para 2015, o personagem passou por uma transição importante, saindo do mundo virtual para uma graphic novel independente. Fato que a internet tem sido a ferramenta mais utilizada para que uma nova geração de artistas apareça no mercado e alcance os leitores. Mas, no Brasil, o processo inteiro para se fazer essa passagem da web para o impresso exige um esforço hercúleo. Ainda mais no caso do Luciano, que faz literalmente tudo no Doutrinador: do balão do quadrinho ao pacote que vai pelo correio. O desgaste foi tanto que, na segunda edição da HQ, o quadrinista decidiu publicar por uma editora e assim ter mais tempo com a sua bebezinha (“Que está crescendo e eu quero acompanhar tudo de perto!”). Aliás, DARK WEB é o nome dessa continuação, que conta com o roteiro do músico e produtor Marcelo Yuka.

Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima
Foto por Sérgio Lima e edição por Renato Lima

Apesar de todo sucesso nessa empreitada (onde restam menos de 10 exemplares nas mãos do autor), as editoras não tem apostado tanto nos novos talentos, que já tem uma base de público na internet. “Às vezes acho que os editores vivem em outro planeta e não entendem nada. E que, na verdade, querem só o lucro rápido. O que é algo cultural no empresário brasileiro. Não tem o menor sentido, pra mim, tanto trabalho sensacional estar sendo publicado via crowdfunding (financiamento coletivo) e não por editoras. É a prova impressa disso!” afirma o designer.

A repercussão do personagem fez com que Luciano fosse convidado para muitas palestras e eventos, divulgando o seu livro em shows e assim saindo do nicho das HQs. Comprovando que a maioria das pessoas que comprou o Doutrinador não é aquele leitor habitual de quadrinhos, que costuma nutrir um imenso preconceito com relação ao quadrinho nacional. “É natural, cultural também. Há 60 anos as editoras despejam toneladas de super-heróis estrangeiros aqui. Vencer, quebrar essa barreira é, pra mim, o maior desafio de qualquer artista que faz HQs no Brasil” ressalta o ilustrador.

Através do Doutrinador, o desenhista também pôde conhecer um monte de gente de quem era fã de carteirinha. E ainda descobrir que essas figuras acompanham o seu trabalho. Além da parceria com Yuka, ele encontrou os integrantes da Plebe Rude, do Sepultura, dos Inocentes, Gastão Moreira, Tomás Portella, entre outros. E também trocou uma ideia com Watson Portela, um ícone dos quadrinhos nacionais desde os anos 80.

Agora o anti-herói busca por novos alvos: Luciano fez um acordo recente com um portal de cultura pop de Lisboa e irá produzir uma aventura do Doutrinador em Portugal. Uma editora californiana se interessou pelo personagem e irá traduzir por lá. Assim como na França. Por aqui, existem 3 projetos transmídia em andamento e que ainda ele não pode revelar muitos detalhes. Mas todos em marcha lenta por conta, literalmente, da crise econômica.

Os investidores desapareceram, é a crise. Mais um gol para Brasília!” E ironicamente brindamos com o nosso chopp…

 Acompanhe os passos do Doutrinador por aqui.

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Confira alguns pitacos de quem já leu o Doutrinador:

“O Doutrinador tem o impacto de um V de Vingança tropical, indo direto ao ponto, como uma alça de mira. É quase uma reportagem policial produzida em um Brasil hipotético. Não, pera… tira o hipotético.”

Octávio Aragão – Designer, Acadêmico e Quadrinista

“A trágica história do Doutrinador nos remete aos clássicos heróis solitários do cinema, dispostos a sacrificar tudo pela justiça. Sejam eles pistoleiros, cowboys ou samurais. Uma grande sacada do autor foi colocar os vilões “fictícios” de forma similar a algumas das velhas raposas da política”.

Humberto Teski – Fotógrafo e Videomaker

“Qual de nós não gostaria de, pelo menos uma vez, ser o Doutrinador e poder acertar as contas diretamente com algum dos nossos “honestos” políticos? A linha tênue entre considerar o Doutrinador como anti-herói ou verdadeiro herói te prende à narrativa de forma impressionante e te transporta para dentro dos quadrinhos“.

José Ramos – Sócio do Quiosque Bar do B

“O Doutrinador é o redentor catártico dos anseios mais legítimos do brasileiro que consegue enxergar o que acontece no cenário político atual. Cada passo do Doutrinador já foi meticulosamente sonhado por mim, me soa como um passeio por um paraíso onírico de justiça. “

Hélio Jorge – Ilustrador e Professor de Artes

“Me incomoda a alienação histórica contida na cotidiana expressão “político é tudo igual / nenhum político presta”. Por isso, li o Doutrinador e achei simplista. O que, num momento de polarização política como esse, torna a abordagem dessa história mais perigosa do que seria. Em outro momento, quem sabe?”

Maurício Gouveia – Proprietário da Livraria Baratos da Ribeiro


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Texto originalmente escrito por Renato Lima e publicado na NOO.

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