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GARGANTA – LP de poesia falada

A poesia tem essa lua de se reinventar sempre (mesmo que a mudança seja para igualzinho a como era antes).

Era recorrente, em meados do século passado, pequenas gravadoras lançarem LP’s de poesia falada. Os próprios poetas (ou atores convidados) recitavam os versos a serem gravados, prensados e vendidos nas lojas junto a discos de música.

A sensação é muito louca, ouvir a voz áspera de um já velhinho Manuel Bandeira; a pronúncia monocórdia de Carlos Drummond de Andrade. A transposição das palavras do papel para o alto-falante, o fôlego e o timbre de cada poeta, confere uma dimensão corporal à poesia.

E que temos nós a ver com isso? Os discos de poesia falada praticamente desapareceram do mercado nas últimas décadas, bem como qualquer inserção significativa da poesia na indústria da cultura. Todavia, com o advento do Youtube e o maior acesso às novas tecnologias, novos formatos vêm surgindo para veicular o bom e velho poema – contrabandeando toda uma nova problemática para a questão da apreciação do verso, quando este se torna audiovisual.

Pois bem, está na reta final a campanha de financiamento coletivo para um LP de poesia que atende pelo nome de GARGANTA. São 20 poetas da mais nova safra poética do Rio de Janeiro e adjacências, nascidos após 1970. Uma nova incursão de trovadores nestes mares nunca (ou tão pouco) dantes navegados, que é o mercado de bens culturais.

Os participantes foram escolhidos a dedo pelo editor e pesquisador Sergio Cohn – o mesmo que realiza um excelente trabalho de divulgação da poesia contemporânea brasileira, através da Editora Azougue. integram a trupe de poetas, dentre outros nomes, Gregório Duvivier, Domingos Guimaraens e André Dahmer.

O projeto tem tudo para parecer anacrônico: uma coletânea de poemas, recitados por seus autores, lançada em disco de vinil, em pleno século XXI. Pois é dessas demências que sobrevive a poesia, de delírios e (re)invenções. De utopias e bobagens. Apoiado.

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Santiago Perlingeiro

Santiago Perlingeiro

Estudante de letras, ataca de escritor e jornalista. Paga sua cerveja trabalhando, ora como garçon, ora como feirante - e às vezes não paga
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