Foto: Lambe Lambe

Mijar é crime

Corre à boca pequena que um funcionário de certo bar na Lapa teria agredido uma moça pelo seguinte motivo: ter feito xixi sem pagar. A moça, frequentadora usual do estabelecimento, avaliou não ser de todo grave usar o toalete num dia em que não estivesse consumindo nada (leve-se em conta a dificuldade que é encontrar, na Lapa, um vaso em condições mínimas de higiene). Ledo engano. Ao deixar o bar, vem o funcionário em questão cobrá-la pelo uso do banheiro, e no que ela se recusa a pagar – Pow!

Carnaval de 2015, Rio de Janeiro – a Secretaria de Ordem Pública divulga que, do dia 12 de fevereiro ao dia 3 de março, foram detidas 671 pessoas, sendo 18 mulheres e 6 estrangeiros, pelo crime de urinar na rua. O delito, enquadrado como “ato obsceno” – e apesar da imprecisão do termo – custou aos delinquentes uma pena que poderia chegar a um ano de prisão, não fosse a alternativa de se pagar uma multa.

A fétida realidade é apenas esta – capitalizamos o mijo, lucramos sobre a merda alheia. A postura do poder executivo é também assaz reveladora: ao invés de colocar em prática políticas de educação e higiene públicas, opta justamente pela cobrança de multas. Já os imperadores romanos conheciam esse recurso, argumentando que “pecunia non olet” – “dinheiro não fede”, em bom português.

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No entanto, recentemente a Prefeitura pareceu ensaiar uma abordagem mais sensível sobre o caso – desde fevereiro de 2013, vem instalando em pontos estratégicos da cidade, mictórios públicos batizados de UFA (Unidade Fornecedora de Alívio). Pior do que esse nome, só o fato desses mictórios serem exclusivamente masculinos. Questionada a respeito, em agosto de 2014 a mesma Prefeitura então inaugura a primeira unidade feminina do projeto – eis a medida do nosso machismo.

Essas segregações escatológicas me fogem absolutamente à compreensão, por exemplo: por que, nos bares em geral, só o banheiro feminino tem privada, enquanto o masculino tem apenas urinol? Homem não caga? Ou antes – por que homens e mulheres têm banheiros diferenciados? (Num futuro idílico, quando eu abrir o meu próprio bar, aviso logo que os banheiros separarão as pessoas entre “porcas” e “asseadas”).

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Mas nem tudo está perdido. Desde o dia 23 de julho de 2015, é garantido por lei aos cidadãos fluminenses o direito a um copo d’água, de graça, por parte de restaurantes e estabelecimentos similares – o que sempre me pareceu o mínimo, além de que fundamental para uma vida gregária. Fica, então, minha contribuição à sociedade, e está lançada a campanha:

– Banheiro Grátis Já!

Concordando com meus detratores – hoje, literalmente, só falei merda.

*Texto originalmente escrito por Santiago Perlingeiro e publicado na NOO.

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