O mosaico literário do Paginário

Não é só o grafite que tem ocupado os muros da cidade. As palavras resolveram fazer parte da arquitetura. As páginas saltaram dos livros, como se toda a cidade contasse uma história a cada esquina.

Paginário#3 - foto por Julia Wahmann
Paginário#3 – foto por Julia Wahmann

Sempre quis levar literatura para espaços onde ela não costumar estar. Em 2011, organizei uma exposição visual-literária chamada Escritor de Parede, no saguão do Teatro Glauce Rocha, em parceria com o coletivo Junto e a artista plástica visual Maria Beatriz Machado. Depois disso, eu e Bia volta e meia conversávamos sobre fazer uma segunda edição. Mas tinha que ver lugar, convidados, produtores, grana e etc. Então um dia, ao visitar demoradamente a incrível Escadaria Selarón, na Lapa, tive o estalo: e se todos esses azulejos fossem páginas? É isso, pensei, páginas na rua. Assim como a Escadaria Selarón forma um mosaico de azulejos, eu colocaria páginas de vários autores e livros nas ruas. Fiquei com essa ideia na cabeça. Em outubro de 2013, participei de uma oficina criativa no ateliê da artista plástica Ana Hupe, e ficamos de propor ideias para um segundo encontro. Então propus o projeto do Paginário para o grupo da oficina. Algumas pessoas se animaram – como a própria Ana Hupe e o artista gráfico Lopes, que colaboram com o projeto até hoje – e assim fizemos o primeiro Paginário”, conta Leonardo Villa Forte, criador do projeto.

Com alma de intervenção urbana, o mural do Paginário é feito com várias páginas de livros diferentes onde amigos, escritores, artistas e amantes da leitura colaboram enviando as páginas preferidas dos seus livros preferidos. Cada página tem uma passagem marcada com marca-textos coloridos. Depois do processo de seleção é só botar o bloco, ou melhor, as páginas na rua.

Eu convido pessoas que eu sei que gostam de ler e que têm um gosto com o qual me identifico para me enviarem páginas. Com essas páginas, formamos o núcleo do Paginário, o número necessário de páginas para colarmos numa parede e ficar legal. Depois que esse núcleo está lá, a coisa fica livre e aberta para quem quiser contribuir, chegar e colar”, explica.

 

Machado de Assis Paginário #3 - Copacabana
Machado de Assis Paginário #3 – Copacabana
Paginário#2 - Laranjeiras
Paginário#2 – Laranjeiras
Cortázar no Paginário #3 Copacabana
Cortázar no Paginário #3 – Copacabana

Na imensidão literária das páginas e trechos, não foi só a cidade que ganhou, mas também Leonardo, onde pode descobrir ou até mesmo redescobrir alguns autores e obras.

Esqueci quem foi que mandou Hilda Hist, porque foram tantas páginas de Hilda Hist, e páginas tão boas, que meu interesse nela cresceu. Comecei a ler recentemente O caderno rosa de Lori Lamby. Excelente, sinistro. Tem uma página ótima também – enviada pela minha colega de mestrado Natália Francis – do quadrinho Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, que ainda não li e me deu vontade de ler. A designer Isabel de Nonno e o escritor Rafael Sperling mandaram ambos páginas de História do olho, do Georges Bataille, e me fizeram botar o livro na cabeceira. E a Carina Destempero mandou um trecho maravilhoso da peça Muito barulho por nada, do Shakespeare, uma das peças dele que ainda não li e quero começar a ler”, conta.

A reação do público passante e leitor por aquele instante tem sido realmente animador para seus criadores. Mensagens de entusiastas do projeto são recebidas todos os dias com verdadeiras declarações de amor a intervenção.

Não esperava por algo tão animador. Tenho recebido muitas mensagens de pessoas entusiasmadas com o projeto. Dizem que o Paginário mudou o dia delas, que vão continuar passando por ele, curtindo aos poucos, degustando o muro, que ele muda a relação das pessoas com a cidade, pedem mais Paginários, perto da casa delas…. Tem gente que já me escreveu dizendo que quis abraçar e beijar o Paginário! Tivemos mais de mil e duzentos compartilhamentos da matéria que saiu na Revista de domingo do O Globo. Uma recepção calorosa. Está sendo recompensador. Sinto como se o Paginário acendesse uma fagulha em cada pessoa que o conhece“, conta.

Como a rua é um espaço múltiplo e democrático, a pluralidade de ações e intervenções no espaço público permitem gerar inúmeras descobertas e experiências. Sejam elas positivas e outras, nem tanto.

Em Copacabana, aconteceu uma curiosidade: temos o caso de duas folhas que foram rasgadas. As pessoas tentaram tirá-las, mas não conseguiram, porque estão bem coladas. Não sei se foi por terem gostado muito daquelas páginas e querido levar para casa, ou por terem se ofendido. Uma página é do livro Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak, um livro de imagens, com pouco texto, e o texto dessa página fala: “Mas os monstros gritaram: ‘Oh por favor não vá embora… nós vamos comer você… gostamos tanto de você!’. E Max disse: ‘Não’!” Talvez a pessoa tenha ficado ofendidade com uma possível interpretação sexual para essa fala, não sei. E a outra página é uma do livro Delírio de Damasco, de Verônica Stigger, um livro em que ela se apropria de falas que ouviu pelas ruas, e nessa página está escrito: “Prefiro as gordas: elas se empenham mais.”. Também tentaram arrancar.
Já em Laranjeiras, alguém inseriu uns adesivos de folhas de árvores, bichinhos e plantas. Deu uma nova vida, acho até que chama mais atenção agora. Gostei do fato da pessoa dar esse colorido ao Paginário. Mas, ao mesmo tempo, não gostei da pessoa ter coberto páginas inteiras, inclusive uma das que mais atraíam os jovens, um quadrinho de Robert Crumb que fala de maconha. Pareceu um tipo de “censura bonita” , relembra Leonardo.

Desde sua primeira ação, o Paginário já soma 3 endereços em locais públicos e um em local fechado. Todos na cidade do Rio de Janeiro.

Paginário #1 – ‪Rua Carlos Sampaio, à altura do número 41, Lapa/Centro (perto da Praça da Cruz Vermelha), feito em dezembro de 2013.

Paginário #2 – Rua General Glicério, à altura do número 15, Laranjeiras, feito em fevereiro de 2014.

‪Paginário #3 – Esquina da Rua Figueiredo Magalhães com a Rua Tonelero, na entrada do metrô Siqueiro Campos pela Figueiredo Magalhães, Copacabana (do lado da Delegacia da Terceira Idade, em frente à estação de bikes Itaú), feito em março de 2014.

‪E o Paginário Fosfobox, feito em local fechado, que deve ficar até julho/agosto dentro da casa noturna Fosfobox – Rua Siqueira Campos, 143, Loja 22A, feito especialmente a convite para a semana de comemorações de 10 anos de aniversário da casa, em abril de 2014.

Paginário#3 – Copacabana – montagem 30 de março de 2014 – Davi, Vini, Leo, Ana, Paulo, Lopes

O projeto está aguardando autorização para intervir em mais 2 locais públicos e abertos e continuam buscando novas páginas em branco na cidade para preencher. Como como essa história é escrita por muitas mãos e parece não ter e nem querer ter um final por enquanto, quem tiver sugestões é só mandar email contatopaginario@gmail.com ou escrever lá na página do Facebook do Paginário.

Que seja conto de fadas, poesia, mistério ou romance. O objetivo aqui é contar uma história feliz.

Leonardo Villa Forte é produtor editorial, tradutor, revisor,  e também criador do projeto MixLit – O DJ da Literatura, onde seleciona e recorta trechos de vários livros diferentes para compor uma novo conto. Se interessou muito pelo projeto do GaleRio e também está sempre ligado nos trabalhos do coletivo Opavivará!em especial a intervenção em que eles colocaram cadeiras de praia e construíram um espaço de socialidade e ociosidade no meio de uma rua no Centro da cidade.

The following two tabs change content below.
Bruna Messina

Bruna Messina

Não curte futebol, mas joga nas 11. Redatora, Roteirista, Analista de Mídias Sociais, Produtora e Phd em deboche e ironia.
Bruna Messina

Latest posts by Bruna Messina (see all)