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Música, Independência e Coletividade

Outro dia eu estava conversando com uma amiga numa mesa de bar e chegamos à conclusão de que iríamos começar uma pequena revolução no nosso círculo de amizades. Estudamos em Niterói e a maioria dos rolês que frequentamos são por lá, pela Zona Sul ou pelo Centro do Rio, mas nós duas moramos na Zona Norte e a gente sabe que aqui tem uns lugares bem bacanas pra se conhecer. Nossa revolução seria essa, reforçar cada vez mais pros nossos amigos que na Zona Norte também tem muitos eventos bons, bares super baratos e super tendência e que a cultura aqui borbulha. O subúrbio é lindo.

Calhou de logo depois dessa conversa a gente ficar sabendo da existência de um evento super maneiro que aconteceria na Penha, uma parceria do coletivo Subsolo com o coletivo Leopoldina Orgânica. Nele ia rolar uma feira orgânica pela manhã e shows de artistas independentes pelo resto da tarde. Eu e Carol – minha amiga da revolução – pegamos nossas coisinhas e fomos nos divertir, só que dessa vez pertinho de casa.

O evento foi maravilhoso num geral: um clima agradável, conheci pessoalmente uma amiga que só havia conversado por Facebook e passei um bom tempo no balanço (this is real, this is me) escutando só banda boa tocando.

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Acabou que quando fui embora do evento minha cabeça estava a mil, então entrei em contato com a galera do coletivo Subsolo pra trocar uma ideia e poder dividir com todo mundo, porque descobertas boas como essas estão aí pra serem compartilhadas.

NOO: Como surgiu o coletivo e quais foram as maiores dificuldades que vocês encontraram/encontram pelo caminho?

O coletivo nasceu com a proposta de um projeto de série de documentários. Iríamos apresentar bandas independentes em minidocs, contendo suas músicas e suas falas sobre as diversas questões que fazem parte da vida de artistas. Não aconteceu como queríamos.  Além da dificuldade de produzir o tipo de formato que queríamos, precisávamos amadurecer nossa organização e processo criativo para realizar o que queríamos. Acabou que se tornou o modelo mais interessante após vermos que a cena independente é grande demais e precisa de uma força em diversos pontos, como registro de eventos, divulgação de novos trabalhos, espaço para opiniões de artistas, contato maior entre microespaços independentes, etc. Então o coletivo foi desenvolvendo o trabalho de forma multissegmentada, até hoje também encarar o desafio dos espaços culturais, organização de eventos e intervenções.

NOO:  Vocês já pensaram em colocar algum projeto de vocês com financiamento coletivo? Acham que esse é o futuro da cena musical independente?

Já pensamos, porém não é também uma plataforma que temos muita intimidade, temos que estudar bem, ver que tipo de formato e projeto podemos apostar no financiamento coletivo e ver nossas possiblidades de divulgação. Não sei se esse é o futuro da cena musical independente, aliás cogitar algo sobre seu futuro é sempre temerário. É uma cena que vive ainda a mercê de uma indústria cultural que se apropria de seus frutos ainda quando quer, da forma que quer. A autogestão é um tanto quanto imposta mas também um tanto quanto impossível de ser realizada sem que haja sacrifícios, perdas e dificuldades. Quando o assunto é financiamento, encarar a cultura como uma grande cena é sempre ver grandes deficiências na sua sobrevivência, ao mesmo tempo que sempre tem coisa rolando e acontecendo, independente disso.

NOO:   Vocês fizeram a 1ª edição do Subsolo + Leopoldina Orgânica na Penha. Foi o primeiro trabalho de vocês pela Zona Norte?

Foi o segundo evento do coletivo. O primeiro tinha sido em Maio, no Liceu da Artes e Ofícios, no Centro, e foram eventos de naturezas bastante diferentes. O primeiro havia sido um fórum sobre música independente, com mesas de palestrantes/debatedores, que tratavam de temas específicos relativos à relação entre música independente e economia colaborativa. Esse foi ocupação, o intuito foi se unir ao coletivo Leopoldina Orgânica, que pensa em ações culturais independente na região. O evento, que eles já mobilizavam antes, ganhou um apoio de nosso coletivo porque percebemos que o pensamento e a ideia de cultura independente dos dois coletivos convergiam. A pauta da cultura orgânica e da mobilização política em espaços públicos, levantada pelo Leopoldina Orgânica é necessária. Mais interessante foi não acontecer no circuito mais “espaço comum”, acontecer na zona norte, na Penha, um lugar que precisa bastante de ações como essa.

NOO: Qual a visão de vocês da produção musical que rola por aqui? A galera passa por mais perrengues pra divulgar o trabalho na Zona Norte ou é complicado em qualquer lugar?

A Zona Norte tem bons agitadores culturais, muita gente investindo tempo e ideias para movimentar as regiões –  destaque para o coletivo Norte Comum, que há anos tem feito uma cena cultural muito forte circular pelos bairros da zona norte. A dificuldade de divulgação do trabalho depende da intenção do produtor cultural. Há movimentos que possuem um público garantido, que sempre marca presença em seus intervenções, por entenderem e trabalharem com um público-alvo. Mas é difícil para produtores que não querem pensar em “público-alvo”, formato ideal ou para qual nicho está falando. Produtores que querem simplesmente difundir cultura independente, para o povo, sem formatar seu público em um nicho tão específico, encontram maior dificuldade de retorno, mas acho que somos esse tipo de gente.

NOO:  Alguém do coletivo é músico? Qual a maior dificuldade de ser independente?

Há alguns músicos, inclusive alguns já tocaram em bandas, mas desde o início do coletivo ninguém atua como músico, por enquanto. A maior dificuldade talvez seja a de se entregar ao coletivo e à música individual, mas é bem possível que daqui a algum tempo haja trabalhos musicais de gente da Subsolo. E será independente, do it yourself, como tudo que sempre fazemos.

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Pra fechar essa entrevista maravilhosa só com mais música boa, e o melhor: o vídeo foi produzido pela galera da Subsolo!

Pra ficar ainda mais ligado ao trabalho dessa galera é só curtir a página deles no facebook ou entrar em contato com eles pelo canalsubsolo@gmail.com.

*Texto originalmente escrito por Beatriz Costa e publicado na NOO.

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