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Na Batalha do Passinho

Comigo! Tchutchá tchá tchum tchum tcha, tchum tchum tchá!

Dia 31 de maio de 2015 entra pra história. O Festival Internacional de Danças Urbanas Rio Hip Hop Kemp, vulgo H2K baixou com a quinta edição no Rio de Janeiro no suingue do passinho. O Teatro Municipal abriu pela primeira vez as portas para o funk e deixou ele entrar com tudo: muito estilo, emoção e calor. Ah, ele entrou de bermuda também! O H2K vem desempenhando um papel fundamental na vida dos meninos e meninas que sonham e acreditam ser possível viver da dança criada nas ruas. Com toda dificuldade e resistência, uma grande parte desses dançarinos urbanos tem desbravado e rompido com as barreiras do preconceito social, racial. Exemplo emblemático foi a Cia Na Batalha, formada há um ano, atualmente com 10 dançarinos de passinho, jovens de 16 a 22 anos que brilharam no último domingo no palco do Municipal. Sim, eles brilharam! Cada vez que eu esbarrava em um deles era contagiada com a felicidade, sorriso arreganhado e muita festa.

Foto: Bou Haya
Foto: Bou Haya

Os bastidores do teatro exalavam um perfume diferente. Os meninos atravessavam os corredores do Teatro e tudo o que se via e ouvia eram semblantes e vozes de liberdade, de empoderamento. Eles entraram pela porta da frente e entraram como reis e rainha: a Marcelly Jackson é única mulher da Cia.

Foto: André Bittencourt
Foto: André Bittencourt

Eles esgotaram os ingressos, arrepiaram e fizeram chorar toda aquela multidão de espectadores curiosos e atônitos, e mais tarde, ainda nos corredores, choro, misturado com riso, brados de conquista, família, amigos, namoradas. Estavam todos lá, todos reunidos no mesmo lugar: Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste, Baixada, todos em uníssono aplaudiram de pé, não só os dançarinos, mas suas histórias e a coragem de chegar até ali e botar pra quebrar! Eles diziam repetidamente: “cara, isso é um sonho”; “não dá pra expressar o que estou sentindo”; “a ficha ainda não caiu”; “há três anos atrás eu dançava dentro do meu quarto, e hoje dancei no Municipal”; “estamos no Municipal!”; “realizei o sonho da minha vida”; “eu procurava o rosto da plateia”; “dançar no teatro grande assim não é fácil não”; “dançar na rua é totalmente diferente do que dançar no teatro”. Eles pareciam anestesiados, como quem não compreende e tenta administrar a grandeza da apropriação daquele espaço, que até às 11h30 de domingo só havia recebido o que é considerada a mais “alta cultura” da música e das artes cênicas do país. O clássico e o erudito viraram sonetos de ninar diante das vibrações do funk nas colunas luxuosas e douradas do Municipal, os imponentes lustres reverberavam e se comunicavam dizendo: “guenta aí, esperamos muito pra sentir o que estamos sentindo nesse dia! Guenta aí, porque o som da rua hoje encontrou com o eco de nossa grandeza. Tem Preto, pobre, funkeiro dançando no Municipal, peita?” clap, clap, clap.

Foto: André Bittencourt
Foto: André Bittencourt

Era tanta satisfação estampada na face da misturada população carioca que pareciam todos contaminados com o vírus da empatia, do reconhecimento do merecimento e honra daqueles ilustres jovens e heróis diante de uma sociedade excludente. Para pra pensar um instantinho e imagine que por ali passaram senhores e coronéis, donos de pessoas, e que ontem de forma simbólica e inédita, essas possíveis “pessoas” inverteram o lado da moeda e se tornaram senhores dos espaços. Afinal, “O Brasil é um país de todos”.

Foto: Bou Haya
Foto: Bou Haya

*Texto originalmente escrito por Renata Novaes e publicado na NOO,

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