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Praça Seca Cultural

Depois da catártica produção e realização do “O Passeio é Público”, me mantive em um estado de observação contínua da movimentação carioca de rua atual. Não, nada disso é novo, eu sei, só talvez tenha mudado um pouco a forma de se organizar.

Sempre me ensinaram que o fato do ser humano ter nascido com dois ouvidos e uma boca só não foi a toa. É preciso estar de ouvidos (e olhos, claro) bem abertos. Assim a gente filtra bem o que agrega somando pra nossa caminhada e deixa passar as pequenas pedrinhas que passam facilmente pelos buracos da peneira.

Antenas ligadas a parte, uma das análises feitas durante esse tempo me fez perceber o quanto essa movimentação toda faz gerar para a cidade, como por exemplo, para a segurança pública. Apesar de nos depararmos com algumas centenas “cidadãos de bem” aclamando pela volta da intervenção militar, mal sabem elxs que o mesmo evento de rua que tanto odeiam (e muitas vezes denunciam e reclamam) geram mais segurança pra sua rua ou bairro do que qualquer efetivo de policiamento.

“Não é frequentado porque é perigoso? Ou é perigoso porque não é frequentado?”

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Foi pensando nisso e colocando a mão na massa pra virar o jogo que o Marcelo Seralva e sua esposa Marissa de Britto criaram o Praça Seca Cultural. O projeto, que começou por conta dos diversos episódios de violência no bairro, já completou um ano em meio em maio deste ano, totalizando até agora 8 edições.

Como tenho uma filha de um ano (recém nascida na época da criação do projeto), gostaria que ele pudesse usufruir da praça como eu fiz em minha infância”, conta Marcelo, nascido e criado no bairro.

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A dupla começou a ir à praça levando livros, oficinas de arte e música, e aos poucos estão chamando a atenção da prefeitura e dos moradores do entorno, conseguindo pequenas melhorias e engrossando o coro, como um cuidado melhor do coreto e da praça, entre outras pequenas coisas. A fórmula é essa: Ações simples, para causas complexas.

Hoje a Praça Seca Cultural já tem quem tenha abraçado a causa de verdade e é figurinha certa na programação, como os artistas, Wagner José e seu bando, uma banda de blues que se apresenta a partir de uma kombi, com gerador próprio; Valquiria Cordeiro, professora de arte; Márcio Rocha, fotógrafo; Francine Pinhão, , Professora de ensino de ciências e biologia;  Fábio Alcoforado, produtor e João Herculano Dias, ator. Em diversos momentos qualquer pessoa pode chegar e simplesmente usar o microfone. O importante aqui é estar.

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Quem quiser chegar e ocupar o espaço com outras atividades é bem recebido. Isso tem acontecido vez ou outra com artesãos que nos pedem para expor produtos em suas cangas próximos ao público. A idéia é que o espaço seja público, e tentamos não trazer burocracia para ele – isso o poder público já faz”, explica Marcelo.

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Em falar em poder público, Marcelo atenta para as questões burocráticas que envolvem a promoção de eventos de rua e como precisamos estar atentos as brechas da lei, sempre muito mal divulgadas e dificilmente acatadas pelos agentes da fiscalização.

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É importante que as pessoas saibam, que você pode usar o espaço público de forma mais simples. Existe a Lei do Artista de Rua que nos ancoraria. Se você for se apresentar sozinho, nem precisa avisar. Se for um grupo, basta notificar a subprefeitura. Pedimos autorização, mas é legal que as pessoas saibam desta ferramenta que é a lei“, conta.

A ocupação tem rolado uma vez por mês, geralmente no 3º sábado e aos poucos a turma está criando outras ações que possam atuar durante esse intervalo de produção. A primeira delas é a Livrocicleta, uma biblioteca itinerante que quer chegar às comunidades carentes do bairro e a outra é um cineclube, que inclusive já rolou na comunidade Divino Espírito Santo, também na Praça Seca.
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Pra quem produz cultura de rua, sabe que o clássico chapéu é indispensável e praticamente a única forma de financiamento do projeto. É gratuito, mas não é de graça.

Nós pedimos uma colaboração voluntária ao fim das apresentações, e as pessoas muitas vezes são generosas, outras vezes não. O evento sempre acontece, havendo público ou não. É uma iniciativa de resistência através da arte”, conta a dupla.

A próxima ocupação será no mês que vem, 19 de setembro, sábado, de 15 às 20 horas. Sempre em frente ao coreto, na Praça Seca (Praça Barão da Taquara). A programação, que ainda está sendo fechada conta com os sempre presentes Wagner José e seu bando (artista residente e mestre de cerimônias), a Livrocicleta (biblioteca itinerante onde os livros podem ser levados sem necessidade de devolução), oficina de artes e exposição fotográfica.

Pra ficar sabendo de tudo e mais um pouco sobre o projeto é só dar um bizu no site e na página do Facebook dos caras.

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Bruna Messina

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Não curte futebol, mas joga nas 11. Redatora, Roteirista, Analista de Mídias Sociais, Produtora e Phd em deboche e ironia.
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