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Sobre amar (n)o Uruguai e a despedida de Pepe Mujica

Nesse sábado, 28, José Pepe Mujica entrega a presidência do Uruguai para Tabaré Vásquez, também da Frente Amplio, dar continuidade ao trabalho realizado por ele, o presidente mais fofo desse mundo. Uruguai ficou em alta no mandato de Pepe para muitos de nós brasileiros e fui viver um pouco las playas daquelas bandas de lá e sentir a onda daquele pedaço de terra latina.

Tudo começou com uma baldeação clássica – porque as passagens para Montevidéu não estavam tão baratas: Fui de Porto Alegre ao Chuí e depois para o destino uruguaXo.

Comecei com meus amigos do Rio por Valizas, e já nos sentimos em casa. A onda de lá era bem a nossa. Bebemos muita cerveja em casa a preço mais camarada e o litrão mais consumido por nosotros foi aquele meu homônimo. Por causa disso, nunca tirei tanta foto com garrafa e/ou rótulo de cerveja que nem lá.

Foto: Ramique Mello
Foto: Ramique Mello

Estivemos em Cabo Polônio por um dia, mas não chegamos a nos instalar. As coisas por lá eram mais caras e também estava cheio. Mas que lugar lindo. Foi lá que concluí que se eu fosse um bicho eu seria um lobo-marinho. Voltamos de lá para Valizas andando pelas dunas, em um pôr do sol e um nascer da lua que eu poderia morrer ali mesmo.

Cabo Polônio / Foto: Bruno Borja
Cabo Polônio / Foto: Bruno Borja
Caminhada Valizas / Foto: Lígia Serra
Caminhada Valizas / Foto: Lígia Serra
Caminhada Valizas - Cabo Polônio / Foto: Lígia Serra
Caminhada Valizas – Cabo Polônio / Foto: Lígia Serra

Os amigos seguiram seus rumos e eu o meu. Fui para La Paloma, seguindo o litoral um pouco mais para baixo. Lá, o momento foi de ficar mais intro, de amar, e de retomar os trabalhos, afinal eu também não estava exatamente de férias. Lá é bem maior que Valizas ou Polônio, e o público é mais família e também tem um ar mais burguês em alguns pontos.

Durante o mês que fiquei em La Paloma eu ia todos os dias à “Feria de Artesanos”, que rola na alta temporada. Vi muita coisa bacana, e tenho aprendido cada vez mais a valorizar o trabalho artesanal. Lá também tinha uma pequena praça de alimentação e apresentações musicais. O estande em que eu estava era composto por marionetes diversas e bonequinhos da Mafalda e do Mujica (ou Pepe, como os uruguaios se referem fofamente a ele), tudo de papel machê, feitos por Gonzalo Graña e família. Aliás, é preciso dizer que ouvir aquelas crianças que passavam falando “Pepe” ou “marionetas” ou “mamiii, papiiii” era de chorar.

Estande na feira de artesanato em La Paloma
Estande na feira de artesanato em La Paloma

Com esses Pepes em punho fomos passar um fim de semana em Montevidéu, e vivemos a experiência de vendê-los em plena Plaza Independencia, sentados em um banco em frente ao prédio da presidência. Àquela altura da minha estadia uruguaXa (amo o sotaque), de Patrícia já bastava eu e já vinha nos acompanhando a Zillertal. À nossa esquerda, além da Zil, estava também a grande estátua de José Artigas.

 Mini Mujicas na Plaza Independencia
Mini Mujicas na Plaza Independencia

Alguns passavam olhando de rabo de olho com um sorrisinho amistoso, outros riam e parabenizavam o trabalho, outros, claro, compravam felizes. Ufa! Mas teve aquele casal que parou, começou a trocar ideia e para quem perguntamos se sabiam de hostel nas redondezas. Deram umas dicas e se foram. Minutos depois voltaram. E não foi para comprar Mujica: foram oferecer a casa deles para nos hospedarmos. Ri internamente um riso de gratidão e de “está bem, Universo, entendi!”. Assim é. E assim foi: novos amigos, novas histórias, novas vivências.

Também nos momentos de vendas em Montevidéu teve gente querendo vender maconha para a gente e outros perguntando se sabíamos onde vendia. Achei engraçado esse movimento, “só” porque estávamos vendendo Mujicas. Aliás, falando nela: essa que tentavam vender para a gente, gente, não é do naipe maravilha divina, natureza em manifestação, certo? Lembram que quando a esmola é demais o santo desconfia? Muito bem. E mais: se acha que é fácil fumar maconha boa no Uruguai só porque é legalizado, ledo engano, companheiros. O cultivo próprio é legalizado, mas não para sair vendendo por aí. E nem tem coffee shops espalhados.

Bem, mas acho que o próprio governo uruguaio pode dar melhores informações, como no panfleto que recebi numa passagem por Águas Dulces – aí percebemos mais claramente as diferenças…

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Para cultivar, há de se registrar e ter uma autorização, que determina a quantidade de pés plantados por pessoa. Mas, segundo o nosso anfitrião de Montevidéu, esse é um procedimento bem simples. Abaixo, a autorização dele, com alguns dados apagados para preservar a privacidade. Mas vale dizer que, quando pedi, já fui explicando que não revelaria a identidade dele, e tive a seguinte resposta: “esta todo bien con el nombre. no hay por que ocultarse”. Claro, né? Achei demais.

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"Pezinho" do Pablo / Foto: Pablo Perez
“Pezinho” do Pablo / Foto: Pablo Perez

Pero ouvi também de um homem de seus 50 e poucos anos que, para ele e outros da mesma geração, esse lance de autorização é um “retrocesso” (falou rindo e fazendo as aspas com as mãos), afinal plantam há anos…

Já perto do fim desse momento “Xo soy uruguaXa” (ouvi isso de uma menina de quatro anos, que completou a frase: “y tu no hablas bien” gracias, chiquita!), fui reencontrar os últimos amigos que ainda estavam viajantes em Punta del Diablo. Foram três dias incríveis e onde conhecemos umas boas sonoridades nas noites por lá. Como o show da banda argentina Any Books and the Freaking Nipples, na rua, em um friozinho e uma boa ventania que foram menos sentidos ao longo do show.

Punta del Diablo / Foto: Ramique Mello
Punta del Diablo / Foto: Ramique Mello

Nessa sexta tem a despedida de José Pepe Mujica da presidência, em um evento oficial. Sábado é seu último dia. Domingo Tabaré assume. Se eu ainda estivesse por lá, iria. Mas os mini Mujicas estarão lá, em peso, representando!

Agradecida ao Uruguai, às praias, ao Pepe, aos amigos, aos encontros, ao amor, às estadias, às trocas. Assim seguimos. Fui embora com as lembranças, uma boa Grappamiel e um cremoso dulce de leche na mochila. Uruguai, em breve te reencontro, meu amor.

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Patrícia Olivieri

Patrícia Olivieri

Escreve, dança, tem vida social ativa e também adora um recolhimento. Se joga como cobaia no que gera curiosidade a ela. Também é Comunicadora Social, Designer para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Produtora Cultural.
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