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Uma pausa para o pouso

Vira e mexe me pego pensando que não escrevo mais pra cá, e me vem um incômodo por isso. É que venho me sentindo tomada por um não-saber. Desde que senti que o estado sem CEP precisava de pausa. De pouso.

Incrível foi descobrir que esse estado só é estado no fora, dentro ele pode ser. É uma coisa que se pode ser. Que se é. Que sou.

Iniciei 2015 com o desejo de pouso. Ter para onde voltar, mesmo sabendo que sempre estou (estamos) indo.

Desejos emanados e novos movimentos iniciados, um trabalho com sentido (e com demanda de pouso) encontrado. Na sequência, ele, o lugar para voltar.

Desde então, a vida tomou um novo rumo. Na verdade, seguiu o mesmo rumo, de forma diferente. Saber minimamente para onde quer ir, ou para onde não quer ir, já é suficiente para as pisadas serem compassadas e cheias de sentido, mesmo que na tal da racionalidade não se encontre explicações óbvias para o que vem surgindo e para as escolhas que vão sendo feitas.

Ouvi esse fim de semana numa festa de família “que bom que agora você tomou um rumo”, no melhor dos sentimentos e das intenções. Mas não me caiu bem e quando me vi explicando que, na verdade, nunca estive fora dele, e que por isso estou agora no momento que estou, me vi contando essa percepção para mim mesma.

No meio do meu rumo, ainda nômade e no mesmo mês que essa coluna foi lançada, chegou para mim um e-mail de um freela para fazer prestação de contas de um Ponto de Cultura. Na hora senti o chamado do bolso e do coração ao mesmo tempo e entrei em contato com o proponente da vaga. O trabalho para eles começou naquele mesmo mês. E o trabalho COM eles se iniciou poucos meses depois.

Eles são um capítulo relevante na primeira escolha nômade do meu rumo – que podemos chamar de história ou de vida. Foi o trabalho que me possibilitou continuar naquela experiência, sendo a minha grande base financeira, que bancava as minhas necessidades básicas nomadísticas. E mesmo agora no estado “com CEP” continuo com eles, e eles comigo. E nisso já rumamos para um ano e meio trabalhando juntos.

Nas urbanidades do Rio das Pedras, o Projeto Construindo o Saber há dez anos oferece cursos pré-vestibular e pré-técnico comunitários. “O projeto trata-se, basicamente, de sonhos”, ouvi do professor voluntário mais antigo.

E quando fala de sonho perto de mim logo encontro meu ponto de conexão. Adolescentes e jovens sonhando o que um dia pude sonhar, mas que tive mais oportunidade para escolher realizar. Nesse projeto descobri que um dos meus trabalhos no meu rumo é esse: contribuir para o direito mais igualitário de escolha.

[E para seguir esse texto que veio em mim e encaminha-lo para o fim, aproveito esse espaço que tenho agora tanto para apresentar esse projeto fundamental para o meu rumo e que me despertou tantos insights, como para divulgar a campanha de financiamento colaborativo que ajudará a fortalecer os alicerces desse trabalho lindo. LINK. Está no ar só até 9 de outubro. E é naquele clima “é tudo ou nada”. Se sentir de contribuir, vem junto. Montamos a campanha com muito amor e confiança.]

Seguindo o meu rumo, esse texto de hoje é também para fechar um ciclo. Não uma porta, mas uma janela. Depois de sete meses sem postar nada por aqui está mais do que claro que é hora da pausa. Da pausa anunciada – para dar espaço para o fluxo seguir fluido.

O estado “menina sem cep” está de altos, mas a moçoila sem CEP aqui de dentro já é. E precisou estar sem CEP, literalmente, para descobrir que isso é dela, isso é ela. Passarinha de alma livre, cujo CEP está dentro, sendo ele onde se escolhe estar aqui e agora.

Foi um ano e meio sem uma casa de fora, mas com mais de trinta. E algumas histórias para contar. Uma hora elas vêm à tona, no meio desse meu rumo, dessa minha história, dessa vida. Tão minha e tão de todo mundo que me permeia e me faz ser.

Por enquanto é isso. Deixo um até logo para esta coluna (não para a maravilhosa e amada Serhurbano).

Sou grata a todos que me leram e que me inspiraram a seguir meu rumo e a confiar em mim e nas minhas escolhas.

Uma pausa para o pouso.

Um pouso para a pausa.

 

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Patrícia Olivieri

Patrícia Olivieri

Escreve, dança, tem vida social ativa e também adora um recolhimento. Se joga como cobaia no que gera curiosidade a ela. Também é Comunicadora Social, Designer para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Produtora Cultural.
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